Martírio

Você nunca pergunta, mas te falarei como tem sido minha vida nos últimos dias: estou viciado cada vez mais no cigarro e ele me dá uma dor tremenda no estomago, talvez seja gastrite. Durmo triste ao lembrar que a cada dia as coisas ficam mais sem sentido, sem nexo, e que não tenho nada para comemorar por ter vivido mais um dia. Até a fome me abandonou. Ela que é companheira da morte me deixou de lado nesse momento. Não a sinto, não a vejo. Meus sonhos foram devorados por um vazio no meu cérebro. É como se pensar fosse algo difícil, duvidoso, sem valor algum… O trabalho que dignifica o homem não consegue animar minha vida, estar no escritório é levar uma montanha no deserto. As arvores, o céu azul de domingo não dialoga comigo, ficaram mudo, cinza, seco. As risadas por motivos fúteis deram lugar ao silêncio, a ausência. Cozinhar é como preparar cimento para construir uma aranha-céu com sua forma monótona. As horas que antes eram roubadas pelo tempo, hoje teimam em me deixar, passam devagar como o andar das formigas antes do inverno. A morte me observa, ou nem a ela interesso.

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